terça-feira, 7 de outubro de 2008

7 de Outubro: Hoje é Dia dos Castelos!

Logo após a fundação da APAC (Associação Portuguesa dos Amigos dos Castelos - http://www.amigosdoscastelos.org.pt/) em 1983, foi instituído um Dia Nacional dos Castelos, celebrado pela primeira vez em 1984.

Inicialmente foi escolhido para as comemorações o primeiro sábado de Outubro, passando a ser uma data fixa (7 de Outubro) em 2003.

Desdo o iníco que a APAC celebra este dia em diversos castelos mais emblemáticos de Portugal, aproveitando a ocasião para divulgar e reflectir sobre a importância do património fortificado.

Por várias vezes recebemos em Torre de Moncorvo a visita de excursões organizadas de membros da APAC, enquadradas por elementos da Direcção, como ainda recentemente, em Março do corrente ano. Infelizmente, o facto de se ter demolido, no século XIX, o Castelo de Torre de Moncorvo, praticamente inviabiliza a possibilidade de termos aqui umas comemorações oficiais, pois falta-nos essa silhueta altaneira de torres e ameias que, se existisse, hoje era, sem dúvida, um trunfo poderoso, do ponto de vista turístico, aliado à imponente igreja matriz do século XVI-XVII.

Por isso, nesta data, chorando essa perda sobre o Muro das Lamentações (que parece ser o que resta da velha muralha virada à praça Francisco Meireles), aproveitamos para lembrar o nome de um homem que já nesse tempo, nos idos dos anos 40 do século XIX, ousou escrever uma carta à rainha D. Maria II protestando contra a barbaridade que se estava a cometer, responsabilizando pelo facto "cinco ignorantes indivíduos" (palavras suas) que compunham então a Câmara de Torre de Moncorvo... Estes defenderam-se com opções urbanísticas e até de salubridade, fundamentais à época, mas, a verdade é que, face ao que se perdeu, vistas as coisas hoje, no século XXI, e mais de 170 anos depois, o nosso defensor do Património tinha razão! - Por isso, e porque este terá sido um dos primeiros defensores do Património monumental em Portugal (tal como Alexandre Herculano), o seu nome merece ser aqui lembrado: JERÓNIMO JOSÉ DE MEIRELLES GUERRA.

É nossa intenção adoptar este moncorvense como patrono de uma célula local da APAC que tencionamos criar, tendo em vista a valorização do Castelo de Torre de Moncorvo, cujo projecto de musealização a autarquia pretende candidatar ao QREN, depois das escavações realizadas desde os finais dos anos 80. Mas o concelho de Torre de Moncorvo possui ainda outras fortificações medievais que merecem ser lembradas e que são as ruínas de Santa Cruz da Vilariça (conhecidas por Vila Velha ou Derruída) e alguns vestígios do castelo de Mós.

Sugerimos aos nossos associados e outros interessados, nesta data ou logo que possível, uma visita a estes locais. Se quiserem saber mais, dirijam-se à nossa sede provisória, agora no Museu do Ferro & da Região de Moncorvo.

Aqui ficam algumas fotos das ruínas do Castelo de Torre de Moncorvo, construído no século XIV no ponto mais vulnerável da cerca (ou fortaleza) mandada construir por D. Dinis, pouco antes de 1295 (relembramos que o foral moncorvense é de 1285):

Pano lateral da muralha do Castelo propriamente dito, a qual foi rebaixada e aterrada, construindo-se depois, num dos lados, o actual edifício dos Paços do Concelho. Vê-se ainda, de lado, o arranque do arco de uma das Portas da Vila, de onde seguia a cerca que protegia o bairro do Castelo.

Muralha da cerca e parte do muro do Castelo (alcáçova), vendo-se o que resta de um cubelo. A porta ao fundo corresponderia à chamada "porta da traição".

Ruínas da alcáçova (zona residencial do alcaide/castelão), no interior do castelo. Estas edificações teriam sido destruídas e soterradas no séc. XIX e começaram a ser escavadas no final dos anos 80, sob indicação do IPPC e sob responsabilidade do município de Torre de Moncorvo e do PARM (direcção técnica e científica). Os trabalhos arqueológicos foram retomados em 2001 pela empresa ArqueoHoje, com patrocínio da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo.

Arco da Senhora dos Remédios, a única porta da cerca da vila que subsistiu, graças ao facto de se ter colocado uma capela sobre o arco. Do lado direito, vê-se o que resta de um bastião tronco-cónico em alvenaria de xisto.

A antiga muralha da cerca medieval protegia o burgo intra-muros. Mais tarde, posteriormente ao século XVI-XVII, novas casas se foram encostando ao lado exterior da muralha. Durante obras de demolições e reconstruções, a muralha lá aparece. Em raras situações a sua alvenaria é deixada à vista, dependendo da sensibilidade dos proprietários...


Vestígios da muralha e de um cubelo, na R. Tomás Ribeiro, ainda com significativa altura. Parte deste cubelo foi destruído em obras realizadas nos anos 80, o que motivou um embargo de obras. Actualmente a reconstrução de um novo edifício foi permitida, sob certas condições. - Não é fácil nem pacífica a coexistência das populações com estes vestígios do passado colectivo...

Fotos: PARM



11 comentários:

Anónimo disse...

Se não me engano, um dos visados por Jerónimo José de Meirelles Guerra, era o pai de meu bisavô António Alberto Araújo (do Nascimento), o bacharel em Direito Claudino Araújo, ou Claudino Araújo do Nascimento, que tinha uma quinta no Carvalhoso, indo por Maçores ou por Mós.
Consta que houve carros puxados por juntas de bois que transportaram pedra do castelo de Mós para (des)fazer o da Torre. Vistas as coisas a esta distância, foi um erro, como o foi a campanha do trigo, no Estado Novo, por exemplo, no que se refere ao escalavrar de montes e montes, tendo como consequência, mais ano menos ano, o arrastar de toneladas de terra para as margens das ribeiras, alterando, por vezes, o curso das águas e destruindo boas olgas de nata, que passaram a evidenciar cascalho e pobreza. Fica-se com a impressão, interpretando o processo histórico, que escapa qualquer cisco para a mente de quem, em determinado momento, resolve decidir, toldando, de modo mais ou menos evidente, a claridade (todavia, se aplicarmos este raciocínio à caliça que durante larguíssimas dezenas de anos, até durante séculos, cobriu «frescos», encontramos um paradoxo ad hoc, infelizmente não aplicável em muitos outros casos).

Carlos Sambade

(Mós, antigo concelho, freguesia de Torre de Moncorvo).

Nelson disse...

Caro Carlos,

Obrigado pelo seu comentário, bastante enriquecedor. Presumo então que esse seu trisavô seria o célebre “Dr. Cuco” de que fala o Abade de Baçal, num dos seus artigos na Ilustração Transmontana, precisamente a propósito do desmantelamento do castelo de Moncorvo? – (sem ofensa por referir a alcunha do seu antepassado, visto que “cucos” chamavam dantes a todos os habitantes de Mós, tipo nomeada colectiva). No mesmo artigo acho que o Abade também refere um outro responsável no dito desmantelamento, um certo Dr. Pontes, mas acho que este surge na continuidade da demolição, pois esta “tarefa”, dado o tempo que levou, ocupou várias vereações. Bem, considerando que os Pontes eram oriundos de Urros (que foi vila) e o seu antepassado Claudino Araújo era de Mós (também antiga vila), é caso para dizer que esta teria sido a “vingança” dos antigos concelhos anexados pela Torre de Moncorvo… E que vingança!!!! pois que nos privaram de uma mais-valia que hoje seria, decerto, uma grande pousada, mesmo no meio da vila…
Sobre as “campanhas dos cereais” foram, de facto, um disparate, nestas terras de solos delgados, e que levaram a fenómenos erosivos irreversíveis.
O grave, nestas coisas, é a perseguição que é movida pelo Poder a quem ousa denunciar os erros (ou, no mínimo, levantar dúvidas) sobre opções tomadas. E o povinho, em vez de parar para pensar e sopesar as razões de cada argumento e agir/optar/contestar, pois não: segue sempre o Poder instituído que é quem tem a faca e o queijo na mão para vender as ilusões…
Eu nem quero imaginar os insultos e as “cobras e lagartos” que devem ter dito do Sr. Jerónimo Meireles Guerra!! Mas, a adivinhar pelo teor da acta da câmara de Torre de Moncorvo de 8.01.1846, os ataques teriam sido virulentos…. Estava então a nascer o Grande Deus “Pugresso”, ninguém sabia o que era isso de “património”, muito menos isso de “turismo”, pelo que o homem devia ter sido visto como um lunático, como todos os que têm o “feeling” de que certas coisas que se destroem ainda podem a ter muita importância no Futuro… só que depois é tarde. Muito tarde… e como a História não se faz com “ses”, resta-nos, ao menos, o juízo da História, sendo certo que nem sempre os que têm razão no Presente, pela razão força, a podem vir a ter face à força da Razão, que só o Tempo dita.
Com um abraço pessoal e saudações associativas,
Nelson R.

Anónimo disse...

O visado por Jerónimo Guerra, a que aludimos, é o tal dr. Cuco.
Aos de Mós também já chamaram de «barriga negra».

A casa do dr. Cuco está em ruínas, no Carvalhoso,com alguns pertences, merece uma visita. Os seus últimos habitantes foram o farmacêutico Adelino Araújo e sua mulher Lídia, pianista e professora de Educação Musical, tia do escritor Mário Cláudio / Rui Barbot. Adelino e Lídia faleceram há menos de vinte anos.

Carlos Sambade

Anónimo disse...

Correcção, a tempo curto, ao comentário anterior: onde se lê Adelino, deve ler-se Julio.
Adelino, irmão de Júlio, foi médico em Carviçais.
O filho de Claudino / dr. Cuco, que refiro como meu bisavô, foi médico «do partido» em Mação e médico aposentado em Freixo e em Mós.
Havia médicos, boticários, ferreiros, sapateiros, albardeiros, cesteiros, latoeiros, barbeiros, ferradores, por essas aldeias ditas perdidas, ainda que a qualidade fosse por vezes contaminada pela escassez de meios, ou de algo parecido.
E havia a mulher, que era uma formiguinha. Ainda que dela menos reze a história, não pode ser olvidada.

csambade

n. disse...

Caro Consócio e amigo Carlos,
O nosso obrigado por mais esta achega. Na verdade eu e mais dois colegas, no já longínquo ano de 1984, durante uma digressão a pé pelo mundo de "trás da Serra" (que nos levou 3 dias, cada um com uma tenda às costas e "ração de combate") em missão de registo de moinhos e quintas abandonadas (e outras em vias de) chegámos também a essa quinta do Carvalhoso, onde ainda vivia o tal de farmacêutico. Fomos muito mal recebidos, aliás fomosm "empontados" como aqui se dizia, e tivemos que ir acampar longe dali, sob um telheiro, pois que começou a chover... O tipo era muito mal encarado e soubémos que fora para ali viver com a mulher, tipo eremita... Realmente hoje, na Idade da Televisão e das comodidades e do fascínio pelos meios urbanos, temos dificuldade em imaginar que houve gente a viver nesses retiros inóspitos, no meio de nenhures (embora o sítio seja algo paradisíaco) como é a quinta do Carvalhoso. Gostávamos de a revisitar... (quando vier por cá, combinamos isso!)
O mesmo se aplica à diversidade profissional e social destes pequenos mundos funcionantes, que eram vilas e aldeias, hoje "secas" como umas palhas-alhas, sugadas pelas Urbes.... Havia, de facto, esses médicos, farmacêuticos, padres, ferreiros, etc. a viver não só em vilas como nas aldeias... Hoje, praicamente só ficaram os camponeses e estes, reformados e idosos, esperam o fim nas soleiras das portas e nos lares de 3ª idade. Quando tiverem tb partido (para o Além), parafraseando o etnólogo Ernesto Veiga de Oliveira sobre o fim dos últimos tocadores dos instrumentos populares, "o nosso mundo terá ficado decididamente mais pobre"... Restarão os descendentes, uns autómatos passeando estupidamente pelas tardes dos fins de semana, perdidos algures nos Shoppings Centers das nefandas Urbes...
Inch'Allah que não tenham, muitos desses, a procurar as olgas perdidas nas montanhas, para plantarem, de novo, umas batatinhas e criarem umas pitas e uns requitos prá sobrebibência...
É que, como notou há dias o Eduardo Lourenço numa entrevista, julgávamos, desde o séc. XVIII. que o progresso humano era contínuo e linear... mas a verdade é que houve descontinuidades na História e algumas bem longas, como a Idade Média nos ensinou.
Abraço,
Nelsn

Anónimo disse...

Esse senhor ficou conhecido em Mós como o desterrado, pela fmaília??

Anónimo disse...

O caso Adelino Araújo (que combinava, até certo ponto, na fase final da vida, o viver no ermo do Carvalhoso com o cargo de director técnico de uma fármácia de Moncorvo) não é único e o facto de empontar estranhos (para ele) pode aceitar-se. Falei com ele apenas uma vez, precisamente na referida quinta, pois, tendo (ele) andado pelas Áfricas, pelo Cubal (não é Cabul, obviamente), acentuou-se o desencontro de gerações. Foi conversa sem despegar durante onze ou doze horas. De cinco pessoas presentes, o anfitrião ocupou oitenta por cento do texto e cinquenta por cento do contexto. Falou-se de:

- como construir um WC no campo

- como conservar frutas, peixe e talvez também carnes

- rádios multibandas

- tempos antigos, com roteiro a partir de fotografias (umas largas dezenas)

- melões

-água(s)

- adegas caseiras


Numa das fotografias do rol aparecia o escritor cujo nome refiro em comentário anterior.

O viver isolado não significa necessariamente estar isolado do mundo. Aliás, o maior isolamento - porque o mais incrível - acontece na cidade.

Do modo como as coisas se afiguram, chegará a nossa vez. Dirão alguns: não, há os lares. Acrescento: na minha aldeia, Mós (Moncorvo), e na aldeia adoptiva, Vilar Chão (Alfândega), um (desses lares) está defronte da igreja e outro defronte do cemitério (o decisor foi pragmático).

O ideal seria que as pernas não falhassem para se poder girar até ao fim, pisando, naturalmente, sempre os mesmos consentidos círculos.

csambade

N disse...

Caro Carlos,
Começo a ficar interessado na personagem Adelino (ou Júlio??) Araújo. De que farmácia de Moncorvo terá sido director técnico?? (seria a farmácia Leite, quando faleceu o Dr. Acácio?); ou seria antes em Freixo? Como é que ele saía lá do retiro? tinha viatura própria? - Será que o sobrinho da esposa, o reputado escritor Rui Barbot/Mário Cláudio nunca pegou nestes parentes para uma novela que fosse?? (bem, às vezes, casa de ferreiro, espeto de pau! eheheh).
E estou mesmo a imaginar essa conversa no meio da "selva" do Carvalhoso, "versus" a selva africana que o sertanejo Araújo terá conhecido: tal qual aquela passagem do J.Konrad, in "O coração das trevas", o Kurtz, aproveitado pelo F. F. Coppola, in "Apocalipse Now": "- Ninguém fala com o senhor Kurtz (coronel K. na película); ouve-se o Sr./coronel Kurtz!!!" (no filme é um repórter esgazeado quem o diz ao capitão Willard, acabado de chegar com a missão de eliminar o Kurtz... Será que o Araújo imaginou que íamos encarregados de alguma missão do género?? (realmente parece que era uma personagem de ficção...).
Aonde nos leva um "post" sobre Castelos...
Abraço,
N.

Álavro / Ligares disse...

Este senhor para além de não premitir qualquer contacto como por exemplo com caçadores que por vezes passamos próximo era desprezado pela família, desconheço o que ele comia ou de que vivia, a casa onde viveu ainda lá permanece, julgo que ainda tem sobrinhos vivos.

Álvaro Ligares/Freixo de Espada à Cinta, começo a ter interesse nos vossos Blog`s, bem hajam pela divulgação do Nordeste, a todos os autores e colaboradores continuem e não parem, estes espaços são precisos.

Anónimo disse...

Na verdade, onde se lê Adelino, deve ler-se Júlio, há aqui qualquer fixação minha, que não domino, que me está a fazer, constante e inconscientemente, trocar os nomes dos dois manos ARAÚJO. Em suma:
Adelino, irmão de Júlio - foi médico em Carviçais;
Júlio, irmão de Adelino - viveu na última fase da vida no Carvalhoso (mas também viveu em Gaia), foi director técnico, por escassos anos, da farmácia Leite. O seu veículo automóvel está ainda no Carvalhoso. Estou em crer que estes Araújos que um tanto erraticamente pousaram em paisagens interiores, tinham veia de génio, por vezes endiabrado, mas nem sempre.

Há um político do tempo da 1ª República com o mesmo nome de Júlio mas não tem nada a ver com este ramo Araújo.

Pela minha parte, carrego, num dos três apelidos, o Araújo, não lhe quero mal nem bem, meus pais já não apresentam esse apelido como principal e, por outro lado, da figura Araújo que se insere na minha linha directa, conservo uma imagem contraditória, com coisas boas e más - mas não será assim, sempre que possamos abeirar-nos da lucidez?

Queiramos ou não, eles foram, à sua maneira, transmontanos, quiseram sê-lo.

csambade
(este meu principal apelido, Sambade, vem de Peredo dos Castelhanos, pelo menos nos últimos 300 anos, não de Sambade. E de onde vem a raiz? Há umas histórias, todavia o que sei, de mais firme, sei-o pela net, deduzo-o).

Num tempo de crise, nos mercados globalizados, podemos propor aos nossos deputados, para a próxima legislatura, que deixem a gente trocar todos os nomes por outros novos em folha, como pode vir a acontecer, num futuro não distante, com o papel moeda, abrindo-se, assim, campo a novas «castelanias».

Pedro Morgado disse...

Para reflectir…!
Agradecia os vossos comentários.